Banquetaço: contra a farinata e a favor dos alimentos frescos

Banquetaço: continua pelas redes sociais.

Banquetaço: continua pelas redes sociais.

Na hora do almoço desta quinta-feira, dia 16 de novembro de 2017, aconteceu em frente ao Teatro Municipal de São Paulo o Banquetaço. Organizado por agricultores, ativistas da segurança alimentar, cozinheiros e donos de restaurantes, o evento teve como principal mote protestar contra a farinata, anunciada no início de outubro pelo prefeito João Doria como uma “saída” para alimentar carentes e estudantes da rede municipal. O composto seria feito de produtos prestes a vencer (jamais foi explicado quais produtos, exatamente) e incluído em merendas escolares e como complemento nos alimentos destinados aos abrigos da assistência social.

O penne ao pesto de Bel Coelho

O penne ao pesto de Bel Coelho

Para provar que comida de verdade é bem diferente, diversos chefs de cozinha produziram duas mil refeições com os alimentos in natura e distribuíram aos participantes do ato. Experimentamos o penne ao pesto feito por Bel Coelho, do restaurante Dui, o cozido de legumes de Marie France Henry (La Casserole), doce de banana e picolés de frutas, cujos autores não descobrimos. Mara Salles, do Tordesilhas, preparou o cuscuz, que não conseguimos provar.

Armando Pambu: "Devia ter todo dia"

Armando Pambu: “Devia ter todo dia”

O macarrão de Bel foi servido frio, como uma salada, com folhas de taioba (classificada como Panc – Produto Alimentício não Convencional) e estava bem temperado. O cozido de Marie estava delicioso e foi bem acompanhado por uma farofa. Os doces também estavam caprichados. Na fila para comer entraram passantes, moradores de rua, gente que viu o protesto via Facebook e foi lá conferir, como eu, entre outros. Gente de todo tipo, enfim. Todo mundo comeu na rua, em pratinho de papel, sob o sol. E a comida foi elogiada mesmo assim. Ou seja, comida boa é boa de qualquer jeito. O mineiro Armando Pambu, que trabalha catando e vendendo materiais recicláveis no centro da cidade, dizia: “Devia ter coisa gostosa assim todo dia!”

Distribuição democrática: todo mundo que quis, comeu.

Distribuição democrática: todo mundo que quis, comeu.

No mesmo momento em que acontecia o protesto, a poucos metros do local, na Prefeitura de São Paulo (que fica no Viaduto do Chá), o prefeito anunciava em coletiva de imprensa que desistira definitivamente da farinata. “Dada à polêmica do fato, nós tomamos a decisão de encerrar completamente”, declarou Doria. Também chamado de “ração humana”, o granulado nutricional ultraprocessado que acabaria no prato da população de baixa renda e dos estudantes das escolas municipais foi condenado por nutricionistas desde o primeiro anúncio. O Conselho Regional de Nutricionistas criticou a medida, e o Ministério Público abriu procedimento para acompanhar a iniciativa. Mas como a Prefeitura insistia na ideia, os cozinheiros e produtores de alimentos começaram a se mobilizar.

Maria Helena Caldas, do Movimento Slow Food.

Maria Helena Caldas, do Movimento Slow Food.

De qualquer maneira, mesmo que a farinata tenha sido descartada, convém ficarmos atentos para novas iniciativas do tipo e às demais questões que envolveram o protesto, como chamar a atenção para a necessidade de aproveitar integralmente os alimentos. Assim, segue o trabalho para que seja evitado o desperdício.

O cozido do Casserole

O cozido do Casserole

Bel Coelho, que convocou o público usando seu perfil no Instagram, disse: “Ele já veio a público dizer que não vai mais utilizar a farinata, mas ainda não revogou a lei”. Ela também pede que a Prefeitura concentre esforços para diminuir o desperdício dos alimentos in natura, que vêm de feiras livres e do Ceagesp. “A indústria tem plenas condições financeiras e operacionais para cuidar do próprio desperdício”, afirma.

A questão é complicada e envolve de gente que planta quiabos e não encontra quem pague um preço justo até donos de restaurantes que não doam os alimentos que fatalmente vão perecer em suas despensas porque podem ser penalizados, caso alguém decida processá-los em razão de uma contaminação alimentar ou coisa do tipo. É tudo muito travado e cheio de melindres.

“Vamos convidar todos a pensar junto: o que queremos comer? Como queremos comer?”, disse Maria Helena Caldas, do Movimento Slow Food.

Marie France Henry: a luta continua.

Marie France Henry: a luta continua.

Ainda bem que gente como Marie France Henry, dona do restaurante La Casserole, está envolvida no projeto. Ela é uma espécie de Robin Hood moderna. Comanda um restaurante sofisticado, que serve pratos requintadíssimos, como costeletas de cordeiro com aspargos gratinados (R$ 116), vendido aos endinheirados, e em paralelo prepara o delicioso cozido de vegetais para servir de graça no Banquetaço e marcar presença na luta contra o desperdício e a má vontade política em fornecer alimentos de qualidade a quem precisa. O Menu da Lú falou com Marie e ela nos convocou para as etapas seguintes. “Queremos fazer outros banquetaços. Não sei se teremos fôlego para muitos, mas temos que seguir até conseguirmos mudanças significativas. As pessoas podem se alimentar melhor sem necessariamente gastar mais. E o poder público tem um papel importante nessa história.”

 

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