Geleia com peixe, geleia com queijo. Da entrada à sobremesa.

Pão com geleia: apenas 5% dos brasileiros têm esse hábito.

Pão com geleia: apenas 5% dos brasileiros têm esse hábito.

Durante muito tempo no Brasil o título de “importado” conferia ares de importância a produtos, principalmente quando se tratava de artigos culinários. Para muita gente, era sinônimo de qualidade. Hoje isso vem mudando, um pouco porque passou-se a valorizar a comida mais fresca, de produção mais próxima, e também porque grande parte de tudo o que é vendido vem da China. São, portanto, importados, mas nem por isso melhores do que artigos nacionais. Claro, continuam existindo aquelas coisas pelas quais certas regiões do mundo são famosas e imbatíveis: vinho francês, massa italiana, chocolate suíço (há quem diga que o belga é melhor), azeite ibérico etc. Fiz essa essa longa introdução para falar de geleias.

Se você pedir ao Google para buscar “geleia importada”, ele vai trazer entre os resultados a francesa St. Dalfour, a polonesa Dana e a Queensberry, entre outras. Bem, até esta semana eu também achava que a Queensberry era estrangeira. Esta semana o Menu da Lú foi  convidado, juntamente com outros jornalistas, para uma visita à fábrica. E descobrimos que essa geleia não é nem nunca foi produzida fora do País. Existe há 30 anos e sempre foi uma empresa brasileira. Muitos consumidores que mandam mensagens ou telefonam para eles ainda têm a percepção de que se trata de algo “importado”.

Geleias na esteira passam pelo controle de qualidade

Geleias na esteira passam pelo controle de qualidade

Não chega a ser ruim para a marca, já que é identificada como algo sofisticado. Mas é curioso, concorda?

Queensberry pode ser traduzida como “a berry” da rainha, ou seja, a melhor frutinha, já que destinada à realeza.

Enfim, vou contar um pouco sobre como é o interior da fábrica de geleias, cuja planta possui 14 mil metros quadrados está instalada na cidade de Itatiba, no interior de São Paulo, e também falar de alguns pratos que podem levar geleias e ficar muito saborosos.

Se quiser espiar a produção, baixe o vídeo: Essa é geleia de pimenta vermelha.

Controle de qualidade

Visitamos a área de processamento dos vidros, rotulagem e empacotamento das geleias. Não chegamos a ver grandes caldeirões de geleias sendo preparadas. Mas vimos as frutas antes de virarem geleia, como chegam à fábrica: sem casca, picadas, congeladas. Algumas: morango, mirtillo, damasco, cerejas vermelha e negra (estas, sim, quase todas importadas, principalmente do Chile e da Argentina). E também maçã, laranja, goiaba, maracujá, abacaxi, amora, jabuticaba, entre outras, vindas do interior. “Todos os fornecedores são certificados”, conta Ana Paula Idesti, gerente de qualidade e desenvolvimento. Grávida, segue com sua garrafa de água na mão e passo rápido, explicando cada pedaço da fábrica para o grupo de jornalistas.

Morangos como chegam: congelados.

Morangos como chegam: congelados.

Ela lê pessoalmente todas as mensagens enviadas ao serviço de atendimento ao consumidor e procura solucionar todas as dúvidas. Se chega alguma reclamação séria em relação à qualidade, é feita uma investigação interna (usando o número do lote anotado na embalagem). E chegam até a buscar o pote na casa de quem reclamou para averiguar. Mas a reclamação mais frequente, segundo ela, não é procedente. “A geleia estraga em razão de contaminação cruzada, porque a pessoa coloca a faca ou a colher no requeijão, na boca e depois no pote de geleia. Não pode”, explica.

Na produção, o controle de qualidade é rigoroso. Se a máquina erra e coloca um pouquinho menos de geleia dentro do vidro, aquele exemplar é descartado; caso o rótulo fique ligeiramente torto, também. Somente os vidros certinhos e arrumadinhos seguem para a distribuição.

Ao longo da visita é mostrada na prática a preocupação com sustentabilidade, seja na coleta para reciclagem ao reaproveitamento de materiais, a prevenção de desperdícios e economia de água. A fábrica é limpa de maneira quase imaculada. OK. Pode ser que tenham arrumado a casa um pouco melhor para receber a imprensa. Mas o dia a dia não deve ser tão diferente, já que tudo estava funcionando e os funcionários, trabalhando na produção.

Falta de hábito

O gerente de produto Marcio Corazza de Almeida lamenta que geleias cheguem apenas a 5% dos lares no País. “É muito pouco! O brasileiro não tem o hábito de consumi-las. Nossa meta é chegar a pelo menos o índice do cream-cheese, que é 9%”, diz. O pessoal do marketing aposta na moda de passar Nutella no pão para expandir o mercado. “A geração Nutella é nossa grande aliada, porque descobriu algo para além da manteiga e do requeijão.”

Entre as várias linhas há geleias com mais ou menos açúcar, diet (com adoçante), light (menos calorias), orgânica, a geleia 100% (sem adição de açúcar – o que a adoça é a frutose da própria fruta), a linha gourmet, com sabores agridoces (menta e hortelã, pimenta vermelha, chutney de manga, entre outros), além de smoothies, um suco grosso com pedacinhos de frutas. E ainda mel silvestre.

 O almoço

Amuse bouche: pupunha, queijo meia cura da Serra da Canastra, manjericão e a geleia de apricot com conhaque.

Amuse bouche: pupunha, queijo meia cura da Serra da Canastra, manjericão e a geleia de apricot com conhaque.

Nosso almoço, no lobby da fábrica, foi concebido pelos talentosos cozinheiros Pedro Roxo e Ricardo Muraoka, ambos chefs de cozinha na empresa Manja, que prepara comida sob encomenda para eventos.

Para começar, o amuse bouche – aquele pequeno canapé que serve para abrir o paladar para a refeição – foi feito com pupunha, queijo meia cura da Serra da Canastra, manjericão e a geleia de apricot com conhaque, a geleia do ano da Queensberry. Gostei da combinação. A geleia, que leva álcool, tem um pouquinho de acidez, o que vai muito bem com o adocicado do queijo e levemente azedo do palmito.

A entrada foi um magnífico ceviche de lírio (peixe branco). O “leche de tigre”, que tempera o prato, leva tangerina, limão Taiti e limão siciliano, além de alho-poró e geleia de pimenta verde. Desse eu pedi a receita. Quem quiser pode me pedir  que eu mando.

O ceviche: excelente.

O ceviche: excelente

Depois foi servido um hamburguinho com cebola caramelizada, queijo derretido, alface e geleia de pimenta. Bem bom. A geleia de pimenta dá um toque diferente no hambúrguer. E em seguida um papardele com camarão, abobrinha e mango chutney. Um pouco agridoce.

A sobremesa foi morango confitado com creme de baunilha, amêndoas, granita de manjericão (uma espécie de concentrado) e geleia morango orgânico. Acho que preferiria se o morango fosse fresco, porque não sou fã de fruta confitada e, ademais, a geleia tem gosto parecido. Mas não estava ruim. Só um pouco redundante. Talvez com geleia de menta ficasse mais interessante.

Hamburguinho com cebola caramelizada, queijo derretido, alface e geleia de pimenta.

Hamburguinho com cebola caramelizada, queijo derretido, alface e geleia de pimenta.

As porções de cada prato eram diminutas, já que a intenção era apenas oferecer uma amostra, perfazendo um menu-degustação. Ficou um gostinho de quero mais. Vou tentar fazer em casa. Ou talvez um dia o Menu da Lú contrate o  pessoal do Manja para um evento. 🙂

Pappardelle com camarão rosa, abobrinha e chutney de manga.

Pappardelle com camarão rosa, abobrinha e chutney de manga.

A lição que quiseram passar eu aprendi: geleia não funciona só para passar no pão. Dá pra combinar com um montão de outros sabores e usar na cozinha.

Para saber mais sobre as geleias:

http://queensberry.ind.br/

www.manjagastronomia.com

Morango confitado com geleia de morango orgânico.

Morango confitado com geleia de morango orgânico.

 

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