Marechal Food Park: um lugar ao sol.

Marechal Food Park: almoço sob o sol do meio dia.

Marechal Food Park: almoço sob o sol do meio dia.

Hoje vou voltar ao tema food truck, porque foi aberto neste último sábado, dia 1º de agosto de 2015, um novo espaço próximo à estação de metrô Marechal Deodoro (linha vermelha). Com 4.000 m², o “food park” tem 30 estabelecimentos, entre contêineres, barracas, carrinhos, quiosques, os caminhões de comida propriamente ditos e food bikes, as bicicletas adaptadas.

O Metrô de São Paulo é dono do terreno, no qual até cerca de um ano atrás funcionava o estacionamento ligado à estação (era bem camarada – pagava-se R$12 para deixar o carro por 12 horas e o preço incluía passagem de ida e volta de metrô). Mas acho justo que tenha sido substituído por um lugar com dezenas de opções para comer rapidamente, pagando pouco. Isso em tese, porque por enquanto isso não parece acontecer. Há diversas opções, mas quase tudo é caro, se considerado aquilo que é oferecido.

A dupla de degustadores do Menu da Lú chegou lá no sábado disposta a enfrentar filas, se necessário. Dia de inauguração – pensamos – vai lotar. Não demais, é claro. Se tivesse gente em pé até a esquina, desistiríamos e tocaríamos o plano B: subir a Angélica em busca de algum fast food no shopping mais próximo. Chegamos. Não estava vazio. Mas também não lotado. Algumas barracas permaneciam totalmente sem interessados, outras seguiam com filas de meia dúzia de pessoas.

Hambúrgueres: até Darth Vader.

Hambúrgueres: até Darth Vader.

Fizemos um pequeno tour pelos estabelecimentos, para prospectar os sabores. A maior oferta é de hambúrgueres. Com recheio de gorgonzola, bacon, cebola caramelada, hambúrguer de salmão do Alasca e até um hambúrguer Darth Vader, feito no pão redondo totalmente negro. Pelo visual, fará sucesso entre os fãs de Guerra nas Estrelas. E também comida mexicana, portuguesa, italiana.

O Napoleon vende lanche de calabresa, de linguiça artesanal, de costela desfiada. Há uma filial do famoso Mocotó, de comida nordestina. Um contêiner com o nome Paris SP vende comida francesa com uma péssima relação quantidade/preço (não posso falar da qualidade, porque não comi): um espetinho (que atende ali pelo nome de brochette francesa) de carne com quatro batatinhas fritas custa R$22. As empanadas argentinas da barraca Las Medoncinas parecem boas. Custam R$7 cada.

Há ainda tapiocas salgadas e doces, além de doces diversos: bolos, brigadeiros, sonhos até macarons.

Hambúrguer com foie gras? Só no cardápio.

Hambúrguer com foie gras? Só no cardápio.

Algumas barracas faziam propagada, mas não tinham o produto para entregar. O British Burger & Potato colocou no alto do seu “Cardápio Burger Gourmet” o hambúrguer (escrito sem acento) recheado de foie gras (o polêmico fígado de pato). Ao custo de R$30. Para informar aqui neste blog, fui investigar se o recheio era um patê ou pedaço do próprio fígado. O atendente não soube responder, apenas sabia que aquele hambúrguer estava “em falta” naquele dia. Se era o dia da abertura, não valeria a pena ter impresso outro cardápio para afixar, apenas com produtos que efetivamente pudessem ser comprados? Várias pessoas passaram pelo anti-clímax de chegar salivando e sair desgostosas. Algumas acabavam comprando as batatas com queijos, vendidas a R$12.

Escolhi um prato que parecia apetitoso: yakissoba do Samurai Kobe, feito com Kobe beef, carne conhecida pela maciez e sabor acentuado, por ser bastante marmorizada (com a gordura entremeada na carne). Bem, o yakissoba estava bem sofrível. Molho bom, mas um pouco salgado. A carne, cortada em lâminas finas e bem passada, podia ser alcatra. Não daria para diferenciar em meio a tanto shoyo. O macarrão, cozido e gostoso, mas pouco. E os vegetais quase crus. Brócolis, couve-flor, cenoura e vagem muito duros. Arrisco uma hipótese: o prato tava fazendo certo sucesso e a produção não estava dando conta de cozinhar tudo no tempo certo. Não valeu os R$25 que paguei por ele. Com uma água a R$3, a conta ficou em R$28.

O outro membro da equipe escolheu um lanche da Viking: o sanduba de salmão defumado (R$20), mais refrigerante (R$5). Sanduíche bom, mas um pouco seco (pouco molho). A maioria estava cobrando o mesmo pelo refri; embora tivessem alguns vendendo latinha de coca-cola por R$7.

Yakissoba do Samurai: molho bom, mas vegetais quase crus.

Yakissoba do Samurai: molho bom, mas vegetais quase crus.

Sol na cabeça

Pratos comprados, o problema maior foi encontrar um lugar à sombra. Com pouquíssimas mesas cobertas por guarda-sóis, muita gente se sujeitava a comer sob o sol do meio dia, que anda quente nestes dias de inverno. Almoçar no sol não dá. Felizmente achamos um cantinho metade no sol, metade na sombra.

As empresas KQI Produções (a mesma do Butantan Food Park, no bairro Butantã, zona oeste de São Paulo) e Contain [it], responsáveis pelo empreendimento, divulgam terem investido aproximadamente R$1,5 milhão nas instalações. Tanto dinheiro e não pensaram em comprar guarda-sóis em número suficiente? Ninguém lembrou de olhar a previsão do tempo e atinar que seria a hora do almoço a mais procurada?

Mais: a mesas estavam sujas de serragem, como se tudo tivesse sido inaugurado às pressas, remetendo a obras de Sucupiras que inauguram hospitais antes da contratação dos médicos e as estradas antes de serem asfaltadas.

Meu sonho de R$10

Meu sonho de R$10

Já que estávamos lá, fomos para a refeição inteira. Então, às sobremesas. Uma delas foi o “naked cake” (doce antigamente conhecido como bolo) montado na barraca Docinho di Mãe. Você escolhe uma massa (baunilha, chocolate ou red velvet); uma fruta (abacaxi ou morango); um recheio (brigadeiro preto ou branco, doce de leite, mousse de chocolate, creme de coco, de morando, de doce di mãe, ninho ou leite moça); uma cobertura (marshmallow ou chantilly) e uma calda (chocolate, caramelo, morango, ganache) e um confeito (Ovomaltine, cookies, paçoquinha). Meu colaborador chocólatra fez uma montagem com redundância de chocolates. Embora seja um bolo razoável, fica a dúvida se vale R$15.

Sonhar é preciso

Já essa dúvida não ocorreu com a minha sobremesa. Sou fanática por sonhos, então pedi o meu na Sonheria Dulca, montada sobre uma bicicleta. Também adoro projetos sustentáveis, que não poluem o ar nem nossos ouvidos com barulhos de motor. A ideia é ótima: você compra o sonho e ele é recheado na hora com creme de baunilha tradicional (escolhi esse), pistache, geleia de goiaba, coco, doce de leite, brigadeiro ou gianduia. Vem em um saquinho simpático preso por um pregador com a marca da sonheria. O sonho é bom. Não é doce demais. Bem recheado. Mas custa R$10. É muito, muito caro para um sonho de 8 centímetros de diâmetro. Pegue uma régua se você não tem ideia de quanto seja isso. É definitivamente pequeno. Se custasse R$5 estaria bem pago. OK. Você ganha um pregador.

Sanduba de salmão: bom, mas ficaria melhor com mais molho.

Sanduba de salmão: bom, mas ficaria melhor com mais molho.

Não sei quanto desses valores são devidos aos altos aluguéis que os donos dos estabelecimentos pagam. O jornal Folha de S. Paulo divulgou que o custo para quem monta um negócio no local vai de R$7 mil a R$10 mil por mês de aluguel, sendo que valor varia de acordo com o tamanho do espaço locado e da frequência de uso. Se é esse o motivo, há algo de muito errado no reino da comida de rua. Será ganância de quem monta o negócio e organiza o parque? Ou será que eu é que sou pobre e na verdade as pessoas estão dispostas a pagar caro para comer sem conforto, sob o sol? E ainda aturar comidas mal acabadas, cardápios falhos, só porque food truck é modinha do momento?

 

PONTOS POSITIVOS

– Diversidade: há opções de comidas diferentes.

– Pode-se levar cachorros. Muita gente circulava com os seus neste sábado. Torna o ambiente mais animado e descontraído.

– Aceitam cartões de débito e crédito.

– Álcool gel em todos os estabelecimentos para limpar as mãos.

– Poucas filas (nesse primeiro dia, pelo menos)

Sonheria: sobre bicicleta.

Sonheria: sobre bicicleta.

 

PONTOS NEGATIVOS

– Faltam guarda-sóis na maioria das mesas.

– Higiene falha. Mesas sujas.

– Lixeiras? Cadê? Achei só uma, meio camuflada. Recolhimento de reciclagem? Não tinha.

– Não vi banheiros.

– Preços altos. Com o valor que gastamos (total para duas pessoas, com pratos, bebidas e sobremesas: R$78), poderíamos comer melhor e com mais conforto em alguns restaurantes.

 

Comida de rua deveria ser algo gostoso e barato. Para se comer sem frescura. Porém, essa horrenda onda de “gourmetizar” tudo parece contaminar o processo. Claro que nunca vão chamar de Parque de Comidas Marechal, porque acham que em inglês fica mais chique. Mas torço para que alguns bravos do ramo lutem contra essa “gourmetização” idiota e que em lugares como o Marechal Food Park possamos comer comidas gostosas e caprichadas pagando preços justos.

 

Marechal Food Park. Estação Marechal Deodoro do metrô (linha 3, vermelha). Rua Dr. Albuquerque Lins, Santa Cecília, região central de São Paulo. Horário: terça e quarta, das 11h às 15h30. Quinta a domingo, das 11h às 21h.

 

 

2 Comments

  1. Eu adoro um bom hamburger caseiro, ainda mais de calabresa . Com muito, muito queijo!

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