Peixes, formigas e doces amazônicos.

Tambaqui de Banda: tambaqui na brasa com baião de dois, farofa e vinagrete.

Tambaqui de Banda: tambaqui na brasa com baião de dois, farofa e vinagrete.

Conhecer o Brasil não é fácil. Com 8,5 milhões de quilômetros quadrados, nosso país é de uma imensidão difícil de abarcar. Quinto do mundo em extensão (são maiores apenas Rússia, Canadá, China e Estados Unidos), inclui lugares tão diversos entre si como Caxias do Sul e Cabedelo, Brasília e Belém, São Paulo e Manaus, cidade na qual o Menu da Lú esteve na semana passada.

Em comum com o Sudeste, a região Norte tem apenas o idioma – com sotaque diferente. De resto, as paisagens, o jeitão das pessoas, os costumes e as comidas são diferentes.

 

TAMBAQUI

Entre os peixes mais comuns na região, o tambaqui aparece nos cardápios frito, empanado, grelhado, na brasa, no molho, entre outros preparos. Depois de provar algumas versões, lamento dizer, mas a mais gostosa é a mais engordante. A costela de tambaqui frita, acompanhada de uma boa pimenta local, vai bem mesmo no calor úmido do Amazonas.

O tambaqui na brasa tem seu charme, mas o sabor é menos intenso. Provamos o peixe nessa modalidade no restaurante Tambaqui de Banda. É servido acompanhado de arroz, farofa e vinagrete. O preço depende do tamanho do peixe. A banda pequena custa R$44,90; a banda média, R$64,90 e a super banda sai por R$104,90. Mas depois de comer de entrada uma porção de seis pastéis de queijo coalho, a banda pequena foi mais do que suficiente para duas pessoas se alimentarem. Um dos restaurantes fica na praça ao lado do Teatro Amazonas e o outro no Parque 10.

 

Pirarucu grelhado com manteiga de ervas, acompanhado de farofa de tucumã e arroz branco.

Pirarucu grelhado com manteiga de ervas, acompanhado de farofa de tucumã e arroz branco.

PIRARUCU

Também bastante comum, o pirarucu funciona melhor com molhos. Peixe de carne branca e suculenta, o provamos no Porto de Delícias, um dos botecos que servem refeições dentro do Mercado Municipal Adolpho Lisboa. Em forma de PF, vem com arroz e feijão ou baião de dois (feijão fradinho) mais salada e farofa com a sempre presente farinha uarini, tudo a R$ 15 o prato. Provamos o pirarucu depois, em grande estilo, no restaurante Banzeiro. Mais bem cotada no quesito comida do Amazonas no ranking do Trip Advisor, a casa tem como chef Felipe Schaedler, cujas criações tomam como base ingredientes da região, processados com técnicas francesas. Comemos o ótimo pirarucu grelhado com manteiga de ervas, acompanhado de farofa de tucumã e arroz branco. O prato para duas pessoas é vendido por R$87.

 

Colher com a entrada Formiga Saúva sobre espuma de mandioquinha.

Colher com a entrada Formiga Saúva sobre espuma de mandioquinha.

 

SAÚVA CHIQUE

Foi no Banzeiro que experimentamos o sabor mais exótico da viagem: a entrada Formiga Saúva sobre espuma de mandioquinha. Servida em uma colher individual, custa R$8. A formiga não chega a ter sabor marcante de, digamos, formiga. Lembro de já ter comido formiga. É verdade! Achei o sabor do inseto um pouco ardido. Um amigo já se encarregou do trocadilho infame, então, vamos lá: picante. Mas a formiga do chef Schaedler tem gosto de erva cidreira concentrada. Talvez justamente para tirar o gosto típico, ele colocou outro no lugar. Não posso dizer que gostei. Definitivamente não vou pedir a receita para fazer em casa. Até porque, mesmo que gostasse, imagino que não seja fácil comprar formigas comestíveis por aqui.

No Banzeiro pedimos ainda pastel de pato (R$32) e a sobremesa Dueto, uma mousse de cupuaçu com chocolate. É gostosa. Mas o azedinho do cupuaçu toma conta do doce. Precisa gostar da fruta para apreciar. No total, a conta para duas pessoas ficou em R$192. Não é barato. Mas vale provar. E o serviço, ao contrário da maioria dos lugares nos quais comemos em Manaus, é rápido e eficiente.

 

BANANAS NA RUA

Outra particularidade manauara que vale nota é a banana pacová vendida na rua. Barracas fritam e vendem os chips da fruta fatiada, verde ou madura com açúcar e canela, em saquinhos que custam R$2 ou R$3, a depender do tamanho e do local em que se compra. Crocante, comprei uma ainda quentinha e fui comendo ao longo da avenida Getúlio Vargas.

Chips de banana pacová: fritas na hora.

Chips de banana pacová: fritas na hora.

 

Taperebá

Taperebá

Cajá

Cajá

TAPEREBÁ

Dentro da profusão de frutas amazônicas de sabores e cores exuberantes (representadas até nas cadeiras da Arena Amazônica), uma em particular me encantou: o taperebá. De gosto ligeiramente azedo, fica bem bom em forma de suco. E não acredite quando disserem que é a mesma fruta que o cajá. Não é. Se olhar bem de perto, o taperebá é alongado, enquanto o cajá é redondo. Bem, eles são parecidos. A cervejaria Amazon Beer, que fabrica a Amazon Beer Taperebá witbier, assim explica a diferença: “Taperebá e cajá são basicamente as mesmas frutas, mas as diferenças ficam por conta do terroir e por conta disso o taperebá tem um sabor mais cítrico e o cajá, mais doce.”

DOCE BEM DOCE

Ambulantes vendem nas ruas também canjica e salada de frutas, sempre com muito leite condensado. O gosto local é por doces bem doces, tanto que me olhavam como se fosse uma alienígena quando pedia meu suco de taperebá sem açúcar. Alguns pensavam que minha intenção era cuidar da dieta e junto com o copo de suco traziam adoçante. Quando eu recusava, alguns balançavam a cabeça me achando estranha e deixavam pra lá, outros, mais preocupados, concluíam que eu era uma turista desavisada e tentavam explicar que a fruta é meio azeda e tal. Eu agradecia, mas mantinha meu suco sem açúcar. Então atribuíam esse gosto bizarro ao fato de eu não ser local.

COENTRO

Preciso falar do coentro. Foi um capítulo à parte nas minhas andanças degustativas na capital do Amazonas. Essa erva sempre me despertou o ódio mais profundo. Se sentia de longe o cheiro (que me lembra sabão em pó) ou o mais leve gosto na comida, pronto, refeição estragada. Comum no Nordeste e também no Norte, o coentro é colocado na maioria dos pratos nessas regiões. Do feijão ao molho de tomate, do frango ao vinagrete, passando por recheios de esfihas, bolinhos e, claro, ensopados e peixes.  Pois bem. Em Manaus não é diferente. E o coentro está em tudo. Então, assumi outra postura: aceitei o coentro como parte do contexto. Não cheguei a me apaixonar por ele e não vou substituir a salsa por coentro, quando cozinhar em casa, mas depois que deixei de odiá-lo ficou mais fácil prestar atenção aos demais ingredientes da comida. Se quiser, pode chamar de lição de tolerância culinária. Não é fácil descobrir o Brasil.

Arredores de Manaus. Andamos nesse barco pelo Rio Negro.

Arredores de Manaus. Andamos nesse barco pelo Rio Negro.

 

 

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*